O novo Código de Processo Civil (CPC), que está em tramitação no
Congresso, tem como principal missão tornar mais rápida a Justiça
brasileira, tão famosa por sua lentidão. A carta atual que baliza todos
os processos do País data de 1973, auge da ditadura, passou por três
reformas ao longo dos anos e está prestes a ganhar uma nova versão.
Iniciado no Senado, o projeto já passou nesta Casa e está na Câmara,
onde pode ser votado já no mês que vem.
O uso desenfreado de um dos principais métodos para retardar o
andamento de processos, o recurso, pode estar com os dias contados. O
procurador da Ordem dos Advogados do Brasil no Rio de Janeiro (OAB-RJ),
Ronaldo Cramer, destaca que no novo CPC, como é chamado o código, vai
restringir o uso dos recursos na expectativa de acelerar o andamento dos
processos.
"Será criada a figura da maior responsabilidade processual. Um dos
problemas do processo hoje é o uso desenfreado de recursos. A parte
recorre sem gastos, não paga nada se perder o recurso, recorre o tempo
todo sem nada a perder. No novo CPC, se o autor do recurso perder, vai
pagar uma taxa à outra parte. É uma mudança muito importante que estava
sendo pensada há mais de 15 anos", disse.
Outra alteração no código vai permitir que causas iguais sejam julgadas
em massa. Por exemplo, uma loja que vende um lote de 200
liquidificadores com o mesmo defeito. Pelo código atual, se todos os
consumidores que compraram o equipamento se sentirem lesados e entrarem
na Justiça, os 200 processos serão julgados individualmente. O novo CPC
acaba com essa burocracia.
"O novo CPC terá mecanismos para que lidemos com as causas repetitivas,
isso vai acabar desafogando o Judiciário. Um dos maiores problemas da
Justiça hoje é a existência de centenas de milhares de ações repetidas, e
um juiz pode julgar de um jeito, outro juiz de outro jeito. O novo CPC
dá segurança jurídica. Na hora em que o Judiciário é contraditório com
ações repetidas, a sociedade não entende. Posso dizer que as ações
repetidas são um dos três maiores problemas da Justiça brasileira hoje",
avaliou o procurador da OAB-RJ.
Essas mudanças devem, na opinião de Ronaldo Cramer, satisfazer uma das
primeiras determinações da Constituição Federal que foi repetida no
corpo do novo Código de Processo Civil: o direito das partes à resolução
dos processos em tempo "razoável". "Essa é uma norma que é mais lúdica
do que concreta. Não tem como mensurar o que seria um tempo razoável. É
apenas um alerta para o Judiciário para que não demore muito o processo.
Como será feito é caso a caso. Tem que haver bom senso, até porque o
processo rápido geralmente é injusto", afirmou.
As mudanças devem acelerar o andamento dos processos, mas as fases
processuais não serão extintas. Ainda será respeitado o rito das
alegações iniciais, seguido pela fase em que o juiz corrige eventuais
falhas nos documentos entregues pelas duas partes. Depois, vem a parte
das provas, a fase da sentença e, finalmente, os recursos.
"Um exemplo de otimização das etapas é que hoje, na primeira fase, o
réu responde na contestação, mas tem matérias que ele precisa responder
por outros meios. O novo CPC acaba com isso, o réu poderá concentrar
todas as alegações em uma única petição", destacou Cramer.
As audiências de conciliação, que geralmente acontecem após a primeira
fase, serão antecipadas, na esperança de se conseguir um acordo e
economizar recursos, financeiros e humanos, ao impedir o prosseguimento
do processo. "A tentativa com essa manobra é resolver logo cedo,
aproveitando o fato de que no início do processo, geralmente, as partes
estão mais desarmadas", opinou o advogado.
Tramitação
O anteprojeto de lei, iniciado no Senado, foi aperfeiçoado por uma
comissão de juristas e outra de senadores e sofreu alterações antes de
ser enviado à Câmara. Agora, outra comissão, formada por deputados, vai
estudar o texto e propor alterações que, se aprovadas, farão com que o
novo CPC volte para o Senado. O texto não tem prazo para ser aprovado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
nos não nos responsabilizamos pelos seus comentarios